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CONHECENDO O BORDADO

Atualizado: 17 de Ago de 2019


POR LORENA ROSA


Quando falamos sobre bordado¹, a técnica do ponto de cruz manual é a primeira da qual temos registro. Com fios de fibra natural e tripas naturais aplicados em peles e couros, o bordado era útil como ornamento em objetos e roupas. Segundo o blog do grupo Matizes Dumont², as primeiras evidências de trabalhos manuais, esses feitos com agulhas de ossos e grânulos de sementes e considerados precursores dos trabalhos manuais em agulha que temos hoje, datam do período paleolítico. O fóssil mais antigo com indícios do uso da técnica foi encontrado na Rússia, com datação estimada de 30mil anos a.C., e para termos uma comparação dentro do campo da história da arte, essa estimativa é anterior ate mesmo à Vênus de Willendorf, estatueta esculpida entre 28000 e 25000 anos a.C., considerada a primeira representação de figura feminina encontrada pelo homem.


O bordado está relacionado a uma tradição. A técnica pode ser utilizada com uma lupa para interpretar as representações culturais e humanas em praticamente to-das as sociedades, se portando como reflexo dos hábitos e costumes de cada povo. Sua prática se insere na cultura material, que aqui entendemos como uma ponte que nos proporciona a aprender sobre a experiência humana através do seu “fazer” manual, entendido por Richard Sennet, na obra “O Artífice”, como um impulso básico liga-do à vontade constante do ser humano em fazer algo bem feito.



Só's (avesso), 2018.

Sennet, na obra “O Artífice”, como um impulso básico ligado à vontade constante do ser humano em fazer algo bem feito.


Nessa pesquisa, o bordado a ser analisado é o de origem italiana, popularmente conhecido no Brasil como “bordado tradicional”. Estima-se que a técnica tenha chegado ao território brasileiro pelos imigrantes italianos, no século XIX, e se mantido como uma forma de manter e disseminar valores culturais imateriais na nova terra. Neste contexto, as tradições referentes ao artesanato já eram es-tabelecidas como práticas femininas, como afirma Neusa Maria Roveda Stimamiglio e Fernando Roveda na obra “Bordando Sonhos”: “[...] às tradições trazidas pelos imigrantes europeus, [italianos] referentes ao artesanato, contribuição mais específica de uma prática feminina [...]”


O status de prática tradicional feminina da técnica se perpetuou geracionalmente através do ensino doméstico, em sua maioria de mãe para filha, na tentativa de manter o que era estabelecido como estética doméstica. Esta, que se estabeleceu sendo valorizada como símbolo de zelo em um ambiente que relacionava a decoração do lar à construção estereotipada do ideal feminino. Ainda hoje, principalmente nas regiões interioranas do Brasil, técnicas de produção manual, sendo principalmente o bordado e o crochê, são amplamente incentiva-das para mulheres.



[1] Trabalho, geralmente sobre tecido, feito à mão ou à máquina, por meio de agulha, em que se criam figuras ou ornatos, utilizando-se diferentes tipos de fios. (BORDADO, dicionário online Michaelis, 23 de maio de 2019. Disponível em < http://michaelis.uol.com.br/busca?id=wMj7 >. Acesso em 23 de maio de 2019.

[1] O grupo Matizes Dumont é formado por integrantes de uma família de Pirapora, Minas Gerais, que se dedica há mais de trinta anos às artes visuais e gráficas e ao desenvolvimento humano. Usam o bordado espontâneo, feito à mão, como linguagem artística e instrumento de transformação social e cultural.

*Texto adaptado de um trecho do meu Trabalho de Conclusão de Curso pela graduação em Artes Visuais da Universidade federal de Uberlândia.


SENNETT, Richard. O Artífice. Tradução de Clóvis Marques. 2. ed. São Paulo: Record,2009.

STIMAMIGLIO, Neusa Maria Roveda; ROVEDA, Fernando. Bordando Sonhos.Caxias do Sul, RS: Lori-graf, 2010, p 07)

CARVALHO, V. C. D. Gênero e Artefato: O Sistema doméstico na Perspectiva da Cultura Material - São Paulo, 1870 - 1920. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo/Fapesp, 2008.


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