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ENTREVISTA ANDREA ACKER

Atualizado: 27 de Ago de 2019



POR MARTA DE LA PARRA PRIETO

TRADUÇÃO POR VANESSA MÚRIAS


“ANDREA ACKER CRIA ALGO QUE FALA COM A NATUREZA PRIMAL DA HUMANIDADE. COM SEU USO DE LINHAS GROSSAS, CORES AGRESSIVAS E UMA FIXAÇÃO NA FORMA HUMANA, AS PEÇAS DE ACKER GUIAM O ESPECTADOR A UM ENTENDI-MENTO DO CORPO FEMININO, DO CORPO MASCULINO E DOS SIGNIFICADOS QUE A SOCIEDADE REFORÇA EM TODOS OS CORPOS. ”

Shelby Dillon, artista entrevistada na edição de número 1 da Revista Galeria das Minas.




Galeria das Minas: Quando você se coloca no sistema das artes, você se identifica como artivista visual. Nesse sentido, você fala que seu trabalho é para “agir como comentários políticos, históricos, socioeconômicos e ecológicos, com a intenção de chamar a atenção do espectador para questões ignoradas pelo status quo”. O que ser uma artivista visual significa pra você? Porque você acredita que a arte é uma ferramenta efetiva para trazer luz e chamar a atenção do espectador a essas questões? A arte é inerentemente política?


Andréa Acker: Arte e ativismo possuem uma ligação forte: ambos se posicionam no mundo sonhando com outro mundo. Meu artivismo consiste em conscientizar sobre causas que eu julgo importantes para fazer do mundo algo melhor.

Uma imagem tem um impacto mais rápido e profundo do que as palavras, além de ser universal e democrática; até pessoas analfabetas podem entender a mensagem. Para informar e transformar a consciência coletiva você precisa conseguir alcançar as massas (o poder reside nelas) de uma forma simples e forte. Eu não acredito que toda arte é inerentemente política, mas pode ser vital para espalhar mensagens. Comecei a trabalhar com lambe-lambes por isso, porque a mensagem é espalhada pelas ruas. Uma imagem forte com uma mensagem curta e clara. Eu sigo essa artista muito legal no insta-gram, @ex_miss_febem3, e ela na maioria das vezes faz curadoria de memes engajados social-mente e suas mensagens atravessam todos os tipos de gente, de todas as classes sociais.

Minha arte não é sempre tão fácil de se relacionar, mas eu trabalho com sinais bem primários para que seja uma mensagem intuitiva, algo inato, um conhecimento com o qual se nasce. Além disso os títulos de minhas peças tornam minhas mensagens bem óbvias, então se você não está em contato com seu lado intuitivo, você pode sempre ler o título.


Ele Não, 2018. Collage and paint on paper.



GdM: Você também fala da sua arte em termos de “prática espiritual”, dizendo que seu objetivo é primeiramente fazer a “espiritualização" da peça, depois a auto-purificação através de trabalho meditativo. Gostaríamos de aprender sobre isso.

A.A.: Eu luto contra depressão/transtorno bipolar por metade da minha vida. Só quando encontrei a meditação transcendental que fui capaz de aprender como lidar com meus altos e baixos. Não coincidentemente na mesma época criei a coragem pra me identificar como artista. Entrei para uma escola de arte onde meditação era parte do currículo; nós meditávamos todos juntos antes e depois das aulas. Minha arte é muito gráfica, provavelmente porque estudei design antes de frequentar a faculdade de arte, e essas linhas que você vê em minhas peças se transformaram numa segunda forma de meditação pra mim. Muito diferente da meditação transcendental, que requer nenhuma concentração, mas ainda assim me alinha comigo mesma. Fazer essas linhas perfeitas repetidamente é provavelmente o único momento em que eu incorporo paciência (sou ariana, tenho absolutamente nenhuma paciência): o mundo lá fora para e eu me sinto completa. Toda peça que eu faço tem minhas melhores qualidades embutidas, então toda criação para por um processo de espiritualização e tem um pouco da minha própria mágica.


Gaia and Tartarus, 2016 Collage and paint on paper.

GdM: Inquestionavelmente, você é uma feminista. Como mulher artista, como artivista, sua prática vem de e para várias questões feministas. Por um lado, parece que você se apropria de valores antigos que parecem ter sido esquecidos enquanto, ao mesmo tempo, mistura-os com desafios enfrentados por feministas hoje em dia. Por outro lado, você revisita a mitologia grega e expõe seu núcleo patriarcal. Como arte e feminismo trabalham juntos? A força matriarcal do passado ajuda a empoderar mulheres hoje? Desconstruir nossa mitologia capitalista patriarcal ajuda mulheres a se libertarem hoje?

A.A.: Eu sempre digo que tenho basicamente dois temas: ou honro as Deusas ou protesto contra o patriarcado. Na faculdade eu fiz uma aula chamada “O Sagrado Feminino na História da Arte”, ensinada por Matthew Beaufort, a coisa mais próxima que tive de um mentor. Durante essa aula eu aprendi sobre Marija Gimbutas, a arqueologia lituana que usou a arqueomitologia para provar a existência de sociedades matriarcais durante a era neolítica. Ao ler seus livros eu me apaixonei pelo simbolismo envolvido em sua pesquisa, parecia ser algo que eu sempre soube como uma verdade profunda dentro do meu coração. A arte que veio depois dessa aula teórica tinha conteúdo sexual mas era bem cartunizado, nada como as coisas mais explícitas que tenho feito recentemente, mas ainda assim foi censurado pelo departamento de arte, e foi aí que o meu lado feminista raivoso desceu pro play. Foi uma experiência muito traumática mas agora que olho pra trás, fico feliz que aconteceu, me fez a artista que sou hoje. Então sim, as vezes tenho raiva, as vezes tenho gratidão, e isso reflete na minha arte.

A influência da mitologia grega foi outro capítulo da minha vida. Minha tia, minha pessoa preferida em minha família, é doutora em filosofia grega e eu cresci ouvindo-a falar sobre isso. Quando eu era bem nova, ela foi a Creta e me trouxe uma cerâmica com a imagem da Deusa Serpente que foi encontrada no Palácio Knossos, o berço da civilização Minoica, considerada por muitos uma das sociedades Matriarcais/Igualitárias mais importantes. Eu pendurei a cerâmica bem em frente a minha cama e essa era a primeira imagem que eu via quando acordava (graças as deusas cresci sem celulares). Sabe quando você vê algo todos os dias e nem nota mais? Anos se passaram e eu podia ouvir Creta chamando meu nome, até escrevi um artigo na faculdade comparando a Deusa Serpente de Minoica com as esculturas de Niki de Saint Phalle (você pode encontrar esse artigo no meu website, na verdade). Ano passado eu finalmente consegui ir a Creta e passei dois meses lá em minha própria peregrinação da Deusa, visitando pontos arqueológicos, viajando de volta no tempo e sendo inspirada pelos valores da alta cultura minoica da Creta Antiga como uma presença viva, e é claro, vi a infame Deusa Serpente Minoica em carne e osso, ou melhor, em argila. Mas uma vez que na Grécia os mitos estão em tudo quanto é lugar, foi impossível ignorar a cultura de estupro que os permeia: 99% das personagens femininas foram estupradas, “raptadas" ou fizeram algo contra suas vontades pelos Deuses. Eu deveria terminar minha pesquisa de cultura minoica em uma residência de arte e exposição solo na ilha de Rodes, mas acabei sendo censurada de novo. Dessa vez por causa de uma foto onde eu mostrava o dedo do meio para a Acrópole (como sinal de protesto contra o que ela representa), tal qual Ai Weiwei. Porque, vamos combinar, por mais que seja o berço da democracia, aquela democracia excluía mulheres e classes mais baixas, então ela que se foda.

Mais uma vez fui pisada pelo fantasma da censura, mas me levantei de novo, a cada vez com mais vontade de denunciar e desconstruir o patriarcado, com a intenção de ajudar mulheres a se sentirem mais fortes e mais confiantes sobre si mesmas e seus direitos.


Censored, 2018. Ink and paint on book page. 21 x 29,7 cm.

Minha arte não é sempre tão fácil de se relacionar, mas eu trabalho com sinais bem primários para que seja uma mensagem intuitiva, algo inato, um conhecimento com o qual se nasce.

GdM: O Brasil está passando por tempos obscuros: o aprisionamento de Lula, Bolsonaro governando o país, censura de arte, etc. Não apenas como artivista, mas também como brasileira, seus medos, preocupações, inquietações e críticas estão presentes em seu trabalho. Mesmo que seu trabalho fique mais difícil, eu diria que também se torna mais vital e urgente, sim? Como você enfrenta esse desafio?

A.A.: LULA LIVRE PORRAAAAA! Todo dia eu acordo com a esperança de que hoje será o dia em que Lula será libertado de sua prisão política. Até fiz uma promessa de que quando isso acontecer, vou correr pelada e toda pintada de vermelho pelas ruas de Santa Teresa (meu amado bairro onde fui nascida e criada, e também onde fica o meu estúdio) como uma arte performática. Desde o início da minha vida política eu votei no PT e sempre vencemos, é a primeira vez que sou parte da oposição. Eu tenho pedigree comunista, meu avô era muito ativo politicamente durante a ditadura militar, trabalhando lado a lado com Prestes, e minha avó, uma juíza na época, teve muitas dificuldades por ser de esquerda e mulher. Ainda assim ela conseguiu apoiar muitas causas feministas; ela chegou atrasada no dia em que eu nasci porque estava falando em um seminário de direitos da mulher.

Tentando olhar pelo lado positivo, muita arte boa aconteceu como subproduto da ditadura, e está acontecendo isso agora. A classe artística brasileira está formando uma frente unida e sendo muito vocal para conscientizar sobre o reavivamento fascista. Ano passado, logo após a eleição do Bozonaro, eu estava exibindo minha série da Peregrinação da Deusa como parte da Ocupação Ovárias, e fui colar lambe-lambes na fachada do prédio; não vou mentir, estava com o cu na mão. Sempre tive mais medo da polícia do que dos bandidos. Mas nenhuma revolução brotará do medo, temos que continuar fazendo nossa parte e indo aos protestos. O povo tem o poder!


Bandeira Vermelha, 2019. Paint on dictatorship newspaper.


GdM: Você tem falado bastante sobre a questão indígena no Brasil também. Gostaria de ouvir mais sobre como seu trabalho se dirige a um assunto tão fundamental como a descolonização.

A.A.: Meu antigo Guru Maharishi Maheshi Yogi diz algo como “Nenhum país será próspero até que os habitantes originais de sua terra sejam respeitados”. Não tenho certeza se ele ainda é o meu guru, o movimento de meditação transcendental é extremamente patriarcal com suas coroas e “meninos de um lado, meninas do outro”, mas essa mensagem grudou em mim. O povo indígena brasileiro tem sido desrespeitado e abusado por mais de 500 anos e algumas pessoas ainda não entendem. Estou em Portugal agora, trabalhando na minha série de descolonização, e dia desses estava conversando com um motorista de Uber português, e ele dizia ao meu namorado que não gosta dos ingleses porque “eles foram para a America e roubaram dos Nativos Americanos, enquanto os portugueses foram maravilhosos porque foram ao Brasil e fizeram trocas ao invés de roubar”. Eu fiquei tipo WTF, as pessoas estão delirando, a conscientização não pode parar!

O desgoverno do Bozonaro tem sido brutal com os povos indígenas, mas eles tem raça e não param de lutar. Eu me coloco ao lado deles, assim como com qualquer grupo oprimido, e eu represento eles em minha arte como forma de respeito e reconhecimento, além do fato de que seus gráficos me fascinam. Ano passado me juntei a eles em um de seus protestos em frente e ALERJ, a trouxe uma mascara inspirada neles; duas mulheres indígenas gostaram tanto que pediram pra tirar uma foto com ela. Foi lindo ver que eles apreciaram minha singela homenagem e poder dizer a eles que eles não estão sozinhos.


Descolonizando, 2019. Acrylic on paper. 29,7 x 42 cm.


Four-eyes principle, 2017 Collage, acrylic and ink on paper.

GdM: Referências de arte, livros, carnaval, censura, cores, roupas, Lula, movimentos como Quem Matou Marielle, Me Too, Ele Não, Free the Nipple, Museus, Natureza, Estampas, o mar. Qualquer um que der uma rápida olhada no seu Instagram vai notar que arte permeia cada aspecto da sua vida, tanto na estética quando na esfera política. Primeiramente, poderia dizer como você relaciona arte com as coisas básicas do dia-a-dia e o que te inspira, quais são seus processos de criação?

A.A.: Eu vivo arte, inspiração realmente vem de todos os lugares. Minha urgência criativa tem ciclos, não posso dizer que trabalho todos os dias. As vezes não faço arte por semanas e as vezes não faço contato com o mundo lá fora, desapareço e trabalho por semanas. Primeiramente me inspiro vivendo muito; viajando, vendo arte. Rascunho algumas ideias no caminho, e então “pauso" a vida e produzo no estúdio. É quase como se o mundo fosse um rascunho bagunçado e quando entro no estúdio tudo se conecta. Gosto de criar sozinha no silêncio, somente com minha essência e, na maior parte do tempo, no chão.

GdM.: Deusas, artes indígenas e tribais, Marija Gimbutas, a cultura Minoica, Miró, Mitologia, o período Neolítico, Niki de Saint Phalle, Simbolismo, o movimento Surrealista. Diga mais sobre suas influências.

A.A.: Engraçado, falei sobre mais da metade desses elementos em respostas anteriores, então sim, tudo isso definitivamente é parte do meu universo. Alguns teoricamente, outros visualmente, outros, como o Surrealismo e o Simbolismo, estão embutidos na minha alma. Em minha vida passada eu vivi na Europa nos anos 20 e acho que minha primeira vida foi durante o período Neolítico, a essência primal do simbolismo é forte em mim.


Creation of the World, 2016 Paint, ink and sponge on paper.

GdM: Gostaria de enfatizar suas influências femininas.

A.A.: A lista pode ir pra sempre. Posso só nomear algumas de minhas artistas femininas modernas/contemporâneas preferidas? Niki de Saint Phalle, Louise Bourgeois, Penny Slinger, Judy Chicago, Sarah Lucas, Dorothea Tanning, Hanna Hoch, Marie-Louise Ekman, Annegret Soltau, Dora Maar, Leonora Carrington, Guerrilla Girls…

GdM: Um programa.

A.A.: Antiques Roadshow! Meu sonho é levar alguns dos meus achados em caças ao tesouro para eles avaliarem e mostrarem no programa! Eu amo o processo de achar tesouros antigos por quase nada, remexendo em um monte de lixo e então, bem no meio de tudo: tcharam, um tesouro! Meu coração bate muito rápido quando isso acontece, eu tenho um barato. Eu vou em mercados das pulgas em todo lugar que vou. Acabei de ir em um em Tanger, uma experiência mística. No Rio, eu compro muito no Shopping “Chão da Glória”, e em bazares de igrejas; um dia ainda vou fazer um pequeno livro com todos os melhores endereços e dicas úteis, ilustrado com alguns looks únicos criados somente com as peças que encontrei enquanto caçava tesouros. Na verdade esse é meu segundo trabalho, eu tenho bacharelado em moda. Infelizmente todo artista “emergente" tem que ter uma segundo emprego hoje em dia. Viver exclusivamente da minha arte é um luxo que não posso bancar ainda. Majoritariamente uso peças de roupas vintage e vendo algumas peças cuidadosamente curadas no site enjoei.com e também no meu atelier. Amo encontrar novos amantes para peças especiais.



GdM: Algo pra ler.

A.A.: Qualquer livro da Marija Gimbuta, The Militant Muse de Whitney Chadwick, Delta of Venus de Anais Nin, e Goddesses, Whores, Wives & Slaves de Sarah B. Pomeroy.



GdM: Algo pra ouvir.

A.A.: CAZUZA.

GdM: Algo pra assistir.

A.A.: Documentários sobre arte.


Hysteria II, 2019 Acrylic on photography. 30 x 40 cm.

GdM: Recentemente tanto sua série Histeria quanto a Vênus Antes de Adão foram exibidas no Feminista Presente, Hoje e Sempre na parte EARLYMADE do Festival Feminista do Porto. Conte um pouco sobre isso.

A.A.: Foi minha primeira vez exibindo em Portugal e infelizmente só estive lá no dia da abertura. Muitas das meninas no programa eram brasileiras, incluindo a Juliana Naufel (@naufss), que estava na capa da edição 1 dessa revista. Eu na verdade trouxe o material dela comigo porque ela não pode vir. Finalmente estou começando a ter um grupo forte de artistas mulheres e é maravilhoso poder apoiar umas as outras, tudo graças a você, Marta de la Parra, vulgo @iamanaesthete, que conectou a todas nós. Amigos que fazemos na internet são reais!

Esse é o quarto ano do festival, dura o mês de maio inteiro e eles tem muitas programações no final de semana. A primeira vez que ouvi falar sobre ele foi pela Bruna Alcantara (@bruncaalcantara.00), outra artista que conheci pela internet e também estava no show esse ano. Amo o trabalho dela.

Outra amiga cujo trabalho admiro e também está no festival é a Aline Macedo (@macedo_aline), que conheci durante a primeira Ocupação Ovárias no Rio. Ela é uma fotógrafa incrível; fiz até uma pequena colaboração com ela quando nos conhecemos na abertura em Porto. O resultado foi de morrer!


Creation of the World, 2016 Paint, ink and sponge on paper

GdM: Por último, conte um projeto secreto que está por vir.

A.A.: Tenho duas exibições no horizonte no Brasil, ambas extremamente políticas. Uma é chamada Arte e Resistência, no Rio, e a outra é CONSCIENCIALIZ-ART, em São Paulo.






andreaacker.cargo.site

@andreaacker


Imagens cedidas pela artista.

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