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POESIA - CAROLINE ALVES

Atualizado: 30 de Ago de 2019



antes de ser capaz de acreditar de alguma maneira que um pardal é imortal


vigésima noite que achei que seria a última,

não como uma apêndice de despedida

é que escrevo sempre pensando no fim

em seu rascunho inicial, o poema terminaria dessa forma

"com as mesmas mãos, não terminar de pôr as calças"

que olho segurar o susto ou em qual dente retrair as raízes?

reclino sobre o ato de iniciar a escrever,

como soltar foguetes e espantar os mundos mas penso

o céu colore, as pessoas fogem: o bicho solto na rua

ninguém ouve o som anterior da explosão escrita,

o sobressalto das últimas linhas mas sem corridas.

a estátua do tempo em poesia,

é como tossir com as poeiras, coçar o nariz,

mudar os móveis, limpar a casa,

procurar os vestígios e jogar sabão.

diferente de iniciar um poema, terminar não possuí pontuação,

na inflexibilidade do término e do recomeço,

o suor frio de não conseguir comer

todas as uvas do cacho,

de entregar a figura canina com as orelhas tortas e pelo rubro,

você me contradiz nos lugares em que cães não se predispõem

em gramados e temperaturas abaixo de vinte.

as pausas das colunas pesam como pesam metais estáveis,

pesam como toneladas de facas não destruídas ao fogo que pesam

como uma mulher carregando a filha nos braços que pesam como

a mochila rasgada e vazia que a poesia criou que doía,

concretizar o figo que não desgruda dos dedos,

a linha mole que se perde em tomadas,

estar de pé em cima da cama tocando as veias

o milagre de escrever, o garoto balbucia,

o sonho que termina sem resposta,

tua raiva engole gin com gelo e limão,

a língua em careta expressiva se eterniza mas

desperta, eu respondo

ser poeta é se fingir de morto


e logo, a pélvis desfraldada fermentando


a principio, o leão-marinho persegue

os fios de pêssego abandonados

que fazem seu colo e acariciam os pentelhos cegos

como quem fode procurando gelatinas podres

quando pensar nas vezes que fui gostosa e com

os bicos do peito pra cima

estive morta de olhos sepultados e magnéticos

h. tem o sêmen preso na panturrilha e gengiva cortada

o pênis duro de anteontem amputou meu cóccix, eu pergunto

o que foi a boca baratinada encostada em granito

há sempre do que fugir com a onda sísmica formigando

onde a úlcera seguinte se encontra

i) na raiz das coxas vomitadas

ii) na baleia deteriorada em taquicardias iii) numa viúva lânguida em telhados redondos h. de orelhas cortadas dissolvendo flâmula te calcifica e deus te permite sangrar antes do almoço, você disse? o maxilar preso em inchaços lambe os ovários no socorro póstumo e chanfrado galopando em duas hipertensões a sua fé bastava em paus circuncidados estrangulando a febre adotiva porque cristo finge que a campainha não toca enquanto suas filhas se masturbam com facas de tomate

não é fácil observar: a casa emoldurando com pingos de chuva ou os mamilos lacrimejando feridas na terra quente


menos que nada de oito morangos colocou na boca o filho do meu estuprador segura as bordas de talco e pomada dentro do ônibus, o corpo desmancha prendendo tentáculos plastificados o filho do meu estuprador mastiga em um tosse amarga me pergunta sobre os bebês como parir os filhos o filho do meu estuprador ainda não sabe como se fazem crianças te dou o nome de semente germinada para quem falece em garras de corvo isto é, as mãos do homem



@amesmacarolalves

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