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SÉRIE DESPEITOS: ARTE COMO DEPOIMENTO


POR FIAMMA VIOLA



A ARTISTA FIAMMA VIOLA RELATA SUA TRAJETÓRIA E TODO O PROCESSO QUE A LEVOU A DECISÃO PELA RETIRADA DAS PRÓTESES DE SILICONE DOS SEIOS. ESTE CAMINHO EM DIREÇÃO À REAPROPRIAÇÃO DE SEU PRÓPRIO CORPO, A PARTIR DE UMA EXPERIÊNCIA DE DOR E ESCRUTÍNIO, DEU ORIGEM À SÉRIE DESPEITOS, CONJUN-TO DE OBRAS QUE SIMBOLIZAM SUA TRANSIÇÃO E REDESCOBRIMENTO DE SI MESMA.



DEPOIMENTO


Quando não aprendemos a nos proteger e amar, sem querer, abrimos as portas para todo tipo de abuso. Meu pacote de brutalidades veio com gravidez na adolescência, vi-olência obstétrica, uma sequência de relacionamentos abusivos, violência doméstica, depressão. Quando você está se sentindo um lixo, as promessas de beleza são irresistíveis. Foi assim que decidi preencher com silicone o vazio que machucava meu peito e entre-guei meu corpo e minha saúde a um homem que nunca entenderá minhas dores, para que ele redesenhasse meus seios pornograficamente.


Foto: Daniela Souza @danielasouzafotografia

O cirurgião plástico...essa figura masculina sacerdotal que aprendemos a respeitar e a enxergar como um salvador num rito de passagem no qual o eu “disforme” é eliminado para o renascimento de um eu “perfeito”. Rito que envolve anestesia, hematomas, dores, cortes, suturas, noites de dormir, remédios fortíssimos, drenos, edemas, inflamações, reações intestinais e cicatrizes sem nenhum objetivo médico de cura, apenas intoxicação. O implante de silicone é um processo que se resume a forçar o organismo a adaptar-se à um corpo estranho composto de substancias derivadas do petróleo com inúmeras toxinas que produzirão um lento e silencioso processo de intoxicação generalizada ao longo de décadas. Quando ninguém se importa com ela, a não ser você, sua dor torna-se loucura ou fragilidade.



Foto: Lary Fraga @fdefraga

Um corpo saudável tende a experimentar menos dor, mas a misoginia instituída desde as maldições bíblicas criou a ideia de que uma das missões da mulher é resistir bravamente à dor, dessensibilizando, banalizando e levando o sofrimento à patamares cada vez mais elevados como meio de atingir um ideal que, de tempos em tempos, é alterado para que nunca seja alcançado. O Brasil é o segundo país em número de cirurgias de implantes de silicone, atrás somente dos Estados Unidos: grandes mercados enriquecendo a indústria da beleza e cirurgiões plásticos.



Foto: Lary Fraga @fdefraga


Estudos que comprovam as inúmeras complicações geradas pela toxidade do silicone ao longo dos anos são pouco divulgados, fazendo surgir a crença de que a “doença do silicone” é uma bobagem sem fundamentos médico-científicos, difundida por um grupo de mulheres histéricas. Contudo, é possível ganhar a dimensão do problema quando nos conectamos com as pessoas afetadas. Foi depois de entrar para um grupo de apoio ao explante de silicone formado por milhares de mulheres, que tive acesso à in-formações e artigos médicos pro-duzidos no exterior sobre a toxidade do silicone e percebi que a maioria das mulheres implantadas divide sintomas parecidos que desaparecem “magicamente” após a cirurgia de retirada dos implantes.



Foto: Lary Fraga @fdefraga

Foto: Lary Fraga @fdefraga


Os sintomas variam de acordo com as particularidades de cada organismo, tempo de uso, estilo de vida e doenças preexistentes, portanto é difícil associar diretamente ao silicone, o que é muito conveniente para a indústria. Comigo tudo começou com uma doença auto-imune (tireoidite de hashimoto), depois vieram problemas na bexiga e rins, perda da libido, fadiga extrema, zumbido nos ouvidos, problemas cognitivos (perda de memória, co-ordenação, concentração, névoa mental) e depressão; um conjunto de sintomas que eu nunca associei ao silicone porque os médicos jamais mencionam qualquer consequência negativa dos implantes, pelo contrário, dizem que é totalmente seguro.



Série Despeitos, 2019. Sangue sobre papel.


Supostamente eles se preocupam com a saúde das pacientes, mas isso não é verdade; o que os move é dinheiro e reputação (que segue inabalada mesmo com a intoxicação em massa atualmente em curso). Já as indústrias fabricantes das próteses seguem lucrando como nunca, escondendo-se atrás de um exército de advogados e da própria classe médica que tem um importante papel na expansão do merca-do e na desinformação de pacientes. Recentemente a Allergan, uma das marcas líderes em vendas, anunciou um recall mundial de suas próteses do tipo texturizada, devido ao risco de câncer (Linfoma Anaplásico de Células Grandes Associados a Implantes Mamários - BIA-ALCL). A imprensa ressalta que são poucos os casos e a probabilidade de ocorrência é baixa, mas não é bem assim.



Um corpo saudável tende a experimentar menos dor, mas a misoginia instituída desde as maldições bíblicas criou a ideia de que uma das missões da mulher é resistir brava-mente à dor.





Primeiramente, ainda não há um controle rígido sobre o número de casos diagnosticados, que vem crescendo exponencialmente a medida que a conscientização sobre o problema tem acontecido. Apenas no último ano, o número de casos descobertos mais que dobrou. Ou seja, o problema não era considerado, o diagnóstico não acontecia. É muito fácil apontar como raro um problema que não é investiga-do. E mesmo considerando o aumento na conscientização, ela não tem acontecido de maneira homogênea no mundo todo e o número de casos não tem sido proporcional nos países com maior número de implantes. Por exemplo, o Brasil é o segundo país com maior quantidade de mulheres implantadas no mundo, e só possui 12 casos oficiais, perdendo para países com uma quantidade muito menor de pacientes implantadas, como, por exemplo, a França (59 casos), Reino Unido (45 casos), e a Holanda (40 casos), isso porque a conscientização na Europa tem sido levada um pouco mais a sério.





TODAS as próteses de silicone texturizadas (de todas as marcas) podem causar o Linfoma, próteses lisas também, mas a possibilidade é menor. Os médicos brasileiros tem optado pela texturizada há vários anos. O linfoma acontece em decorrência da ação do sistema imunológico sobre o corpo estranho que chegou a um ponto extremo de provocar uma mutação. O FDA e outras autoridades de saúde não recomendam a remoção em pacientes sem sintomas do linfoma. Claro, eles não tem como dar o suporte adequado à uma multidão de mulheres, pagando pela cirurgia de remoção, apoiando e indenizando cada pessoa que foi enganada e atualmente está com a saúde em risco. Melhor esperar que elas adoeçam ou morram, cada uma no seu tempo e à sua maneira, assim serão pacientes mais lucrativas para o sistema e nenhuma indústria quebra. Enquanto isso, elas seguem passivas com uma bomba-relógio dentro do peito. Quem se importa? Quanto vale a vida de uma mulher?





Quando a saúde de mulheres está em jogo, tudo se torna relativo, questionável ou sem importância, alvo fácil de estratégias e manipulações comerciais. Por outro lado, cada mulher que se afasta desse sistema é um corpo a menos a ser controlado, manipulado e mutilado. Quando muitas mulheres se afastarem, o sistema começará a se dissolver. Realizei a cirurgia de retirada dos implantes no dia 23/07/19 e estou sentindo tudo isso na carne, me reapropriando do meu corpo, ressignificando dores e me fortalecendo. Nossos corpos nos pertencem!





SÉRIE DESPEITOS


A partir do sangue drenado do meu peito nos primeiros dias de pós-operatório, nasceu a série “Despeitos”, criada com imagens ge-radas pelas próteses impressas sobre papel. Um trabalho muito simbólico que retrata um momento de passagem e reapropriação do meu corpo, recuperação da saúde, auto aceitação e questiona-mento do padrão de beleza através de reflexões, textos e registros emocionais produzidos durante o processo de remoção de meus implantes de silicone. Acompanhe no instagram @fiamaviola.



Série Despeitos, 2019. Sangue sobre papel.


Pra quem quer pesquisar e entender melhor sobre o assunto, uma fonte importante de informações é o grupo do facebook “Doença do Silicone - Apoio ao Explante (remoção de prótese)" que tem uma sessão só de estudos e artigos médicos. Foi lá que busquei informação pra formar minha convicção e depois decidi pelo explante. Lá conheci muitas mulheres e seus relatos sobre a relação com o silicone; interagir com elas também foi importante para minha decisão. Finalmente, depois de encontrar pessoalmente várias delas em São Paulo, fui segura para o hospital no dia 23/07/19.



Foto: Daniela Souza @danielasouzafotografia


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